Meu dia de cão.
Eu crio certos rituais no meu cotidiano. Nada de macumba ou coisa parecida. Mas certas ações que me trazem segurança. Agora que faço um curso perto de um shopping, criei o hábito de passar ali e tomar uma casquinha de sorvete. Até já preenchi uma cartela de fã de carteirinha, o que me dá direito à uma de graça na semana que vem.
Ontem lá estava eu, ritualmente na fila da casquinha. Com o calor, muita gente procura refrescar e adocicar a vida. Do meu lado percebi uma senhora. Acreditei que ela também queria o doce gelado, mas não entendia muito bem o conceito de fila. Por isso estava do lado e não atrás.
Para minha surpresa, ela tocou meu braço. Instintivamente, olhei. Me paga uma refeição, a senhora perguntou, com cara de pobre coitada. Tenho pra mim que esse negócio de esmola não funciona. Não vai melhorar a vida da pessoa, nem aliviar minha consciência burguesa. Assim, respondi com um não.
Ela soltou um cão pra cima de mim. Cão. A fisionomia se alterou num piscar de olhos. De coitada passou pra bruxa. Cão. Assim mesmo, sem mais nada, somente uma palavra. Cão. Falou e saiu andando. Nossos olhares se cruzaram mais uma vez e ela repetiu. Cão.
Desde já quero que essa mulher seja a representante brasileira em Pequim 2008. Na modalidade de xingar, é uma campeã. Nunca fui tão bem vilipendiado. Com tanto gosto, tanta vontade. E notem a economia de palavras. Apenas uma e curta. Cão.
Na semana que vem, continuarei meu ritual. Volto ao quiosque para pegar minha casquinha de graça. Espero que a tal senhora também não crie o ritual de me insultar toda semana. A não ser que seja treino olímpico… vai, Brasil!




ela não deve ser tão metódica assim, não…
só em SP mesmo pra ter mendigo até em shopping.
esses dias tocaram a campainha em casa 8 da manhã dum sábado. Lá vou eu atender, de pijama e olho ramelento, e um sujeito vai COMEÇAR a falar de me vender tapetes. Soltei um NÃO e fechei a porta na cara. A reação, ouvida em off enquanto eu voltava pra cama: VOCÊ É UM FILHADAPUTA. FILHADAPUTA DESGRAÇADO, CORNO. TÁ TODO MUNDO OUVINDO? ESSE VIZINHO DE VOCÊS É UM FILHADAPUTA DESGRAÇADO CORNO LAZARENTO!
Felizmente, nunca troquei mais que uma palavra com os vizinhos.