A negação de Hollywood.

A tropa foi à Berlim e voltou com o urso d’ouro na mala. Parabéns para Padilha, sua equipe e elenco. Um prêmio que irá alavancar o filme no exterior. Mas me incomoda as declarações de Padilha, sempre frisando que tropa nada tem de hollywoodiano. Se é cinema narrativo – e tropa o é -, tem raízes profundas na terra do tio Sam.

Ele argumenta que em suas encenações dá muita liberdade aos atores e que isso não se faz lá na América do norte. Quando diz que apenas isso lhe tira a pecha de hollywoodiano, Padilha se mostra um tanto ingênuo. Vamos pensar com calma…

Em primeiro lugar é preciso ficar claro que a liberdade dos atores é física e não intelectual. Eles podem se movimentar, dizer com suas palavras, mas há um roteiro, há um diretor, há uma história, que o ator não altera. É liberdade, mas com restrição.

Agora vamos entender o que propícia esta liberdade física aos atores. Hoje as câmeras estão muito leves. Apenas um homem consegue carregar e se movimentar um certa liberdade. Além disso, existem equipamentos que presos ao corpo do operador, aliviam ainda mais os kilos e suavizam seus movimentos. De um outro lado, a tecnologia sem fio evoluiu nesses últimos anos. É possível ajustar foco, diafragma, zoom e outras coisas à distância, sem tocar um dedo na câmera. Portanto a liberdade que Padilha tanto gosta é fruto do nosso momento tecnológico.

Nos primórdios do cinema, a câmera era tão pesada que era mais fácil o cenário se mover. O filme só era sensibilizado pela luz do sol em dia de brigadeiro. Por isso os recém-nascidos estúdios saíram de Nova Yorque e foram para costa oeste, Hollywoodland. Lá tinham espaço e iluminação abundante. Bastou um leve emagrecimento do equipamento para D.W. Griffith forjar a linguagem cinematográfica. Plano e contra-plano, geral e detalhe.

Com as duas grandes guerras foram criados filmes e câmeras para ir ao front. Leves, compactas e resistentes. O único senão era que só podiam filmar poucos minutos por vez, sendo necessário regarregar. Quando a paz chegou, os franceses usaram a liberdade que esse equipamento permitia e criaram a Nouvelle Vague. Cortes rápidos e câmeras pesseando pelas ruas de Paris. Os franceses tentaram quebrar o linguagem cinematográfica. Mas não dá pra dizer que realmente conseguiram. A admiração por Hithcock e Welles não os deixou ir longe.

Com o advento do vídeo digital, uns dinamarqueses tentaram o mesmo. Diziam que essa mídia libertaria os cineastas do mundo. Balela, todos que assinaram o tal Dogma, correram para Hollywood na primeira chance que tiveram.

São poucos os cineastas que quebraram a linguagem hollywoodiana e obteram um certo sucesso. Um deles é o brasileiro Rogério Sganzerla, diretor de O bandido da luz vermelha. E também são poucos que conseguem ver um filme dele até o final, sem dormir ou avançar a fita. Seus filmes eram sempre muito comentados e pouco vistos. Muito diferento do fenômeno que é Tropa de Elite.

A liberdade que Padilha prega se renova a cada avanço tecnológico. E a indústria cinematográfica se recicla com tais novidades. Não é a tôa que existe uma categoria de tecnologia no Oscar. Dizer que seu filme não é hollywoodiano é o mesmo que alguém falar que fez um samba sem ser brasiliano.

Não entendo bem esse nojo que a nossa elite tem com os americanos. Em querer manter certa distância do tio Sam. Isso fazia sentido no passado. Hoje é um preconceito grande. Quase tão grande quanto os daqueles que acusam Padilha de ser fascista.

~ por GOM em 19 Fevereiro 2008.

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