Encarnação do demônio.

Engoliram Zé do Caixão. O personagem do Mojica não é mais o mesmo. Se perdeu. Foi-se o encanto. Em sua nova aventura ele se torna um clichê dele mesmo. É um velho barbudo, louco que não corta as unhas. Acabou o mito.

O primeiro golpe está no roteiro. Transpor a figura para a cidade grande foi um erro. Zé do Caixão tem poder naquelas cidades pequenas, com uma igreja na praça, onde as mulheres vestem saias e não cortam o cabelo. Depois colocaram personagens tão cruéis quanto ele para persegui-lo. Um padre sádico opus dei e um policial que mata criancinhas. Esses caras são reais, vemos no noticiário. Isso enfraquece o Zé, que é irreal.

O segundo golpe é do tempo. Mojica vem de outro tipo de cinema. Tem outro ritmo de filmar. Ele é cru, muitas vezes ingênuo, simples. Empetecar isso com uma belíssima fotografia, figurinos Herchcovitch, edição modernosa, é uma contradição. Seria melhor que outra pessoa tivesse dirigido. No passado, Mojica convencia pessoas comuns de que cinema era divertido, que dava fama e dinheiro. Fazia cinema com poucos recursos, era possível. Hoje não é mais. Agora, tem que convencer políticos e publicitários de que seu cinema é viável. Foi a magia, entrou o negócio.

O filme começa muito bem. A abertura é demais, com o diretor da prisão com medo de libertar Zé das grades. Essa seqüência é o melhor do filme. Depois fico com a impressão de que a história demora pra acontecer. Falta ritmo. A morte de Jece Valadão talvez tenha contribuído para isso, mas não pode ser a única culpada. Dava pra cortar muita coisa. As cenas de tortura, sangue e abusos são boas, agradarão os fãs do estilo. Só que estão perdidas no meio de uma trama que pouco diz.

Acho que tem um momento que resume bem o que senti. Num dos delírios do Zé do Caixão, ele se vê num inferno. Toda a ação é bem produzida. Efeitos de imagem, efeitos de fotografia, figurinos, maquiagem. No meio disso, vemos um homem costurar a boca de uma mulher. Fio, linha, agulha passando pela pele. Só que o sujeito está com luvas. Luvas de tatuador, daquelas cirúrgicas. Luvas que quebram tudo que foi criado pra ser terror. Luvas que apagam a imaginação.

E é incrível a força que as imagens dos filmes antigos do Zé ainda tem. Quando elas aparecem em flashback o filme se torna outro. Fica claro que é ali que o personagem se encontra, que ele vive. São muito mais belas que qualquer uma desse novo. Uma pena que não deixaram Mojica filmar essa história antes, seria mais um clássico. Filmada hoje, é um prego no Caixão.

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~ por GOM em 28 agosto 2008.

2 Respostas to “Encarnação do demônio.”

  1. Sem duvida gostei mais do filme que voce, mas essa parte das luvas no inferno eu concordo plenamente!

  2. Reparei nestas malditas luvas também… E o roteiro modernizado para pior. Diluíram o lance da busca pela mulher ideal por um pega pra capar interminável com garotas.

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